As vozes das ruas ecoam por todos os cantos, o clamor popular ganha força e poder de reivindicação. Cada brasileiro nos últimos dias passou por uma experiência diferente. Experiência esta que muitos nem conheciam, pois infelizmente há muito não fazia parte da nossa História, o povo foi às ruas lutar por seus direitos, mostrar aos políticos quais as reais necessidades de cada cidadão.
O movimento popular desta segunda década do século XXI aqui no Brasil possui características próprias, que são marcas do tempo histórico no qual vivemos. Podemos começar destacando a forma de organização; a internet. Esta ferramenta que se populariza a cada dia torna possível o contato instantâneo de milhares de pessoas, independente do local onde estejam. O povo que na rua está sempre protestou pelas redes sociais, o que ocorreu nas últimas semanas foi que os manifestantes ficaram online nas redes, e também nas ruas. Outra característica é a falta de clareza e objetivos concretos nas reivindicações, é quase impossível determinar qual a principal temática dos protestos, já que os centavos das passagens se multiplicaram, chegando até os milhões das arenas da copa.
Mas esta falta de objetivo e de clareza nas reivindicações também faz parte dos nossos tempos, o mundo líquido no qual vivemos vê certezas e verdades se desintegrarem, vê constantes readaptações, por tanto não fica determinado qual seria a principal reivindicação, nem a qual poder específico se dirige este protesto, pois até os três poderes democráticos demonstram fragilidade e falta de clareza, quanto ao seu papel na sociedade e suas responsabilidades. Poderíamos classificar os protestos como uma Torre de Babel, onde cada um fala uma língua diferente, correndo até o risco de se desintegrarem com a mesma rapidez que se formou.
Mesmo sem que haja uma única “língua” nos protestos, podemos tentar traçar um mapa das manifestações, buscando compreender as vozes das ruas. O que identificamos é que os principais desejos da população dizem respeito a questões cotidianas, questões que permeiam o dia a dia das pessoas. Saúde, Educação, Segurança, Mobilidade, estão entre as principais reivindicações. Se não existe um objetivo claro, como em outros momentos, onde se desenhava de forma concreta o norte dos protestos, existem questões que se destacam e demonstram quais os principais anseios populares.
Quem aparenta não ouvir de forma clara esses anseios populares são os políticos, seja na esfera federal ou municipal não conseguimos identificar de forma direta que o governo tomará decisões concretas. Em uma manobra política o palácio do planalto procura fazer das vozes das ruas às vozes de uma reforma política. Na esfera municipal o prefeito não sabe lidar com as manifestações dependendo de assessores para dialogar com manifestantes, mas sem demonstrar vontade de realizar transformações concretas.
A reforma política não estava nas principais pautas dos protestos, é importante sim fazermos esta reforma, mas muito do que é discutido ainda está longe das camadas mais populares. Questões mais práticas estão na agenda da população, o povo quer Saúde de qualidade, Educação de qualidade para todos e um transporte digno. Fazer uma reforma política e na estrutura das nossas instituições é um caminho para aproximar políticos e população, e reforçar nossa democracia, mas não se pode perder a ênfase primária das principais reivindicações populares por questões que ainda se configuram distante do povo.
O fato é que as pessoas estão nas ruas, vivemos um momento único na nossa História, protestos populares que procuram reivindicar por demandas históricas da nossa sociedade, o momento não é para buscar definir os Deuses e os Demônios, todos os políticos têm sua parcela de contribuição para as pessoas estarem nas ruas, uns mais outros menos é verdade, mas nenhum pode se eximir totalmente da culpa. Que os protestos continuem firmes, tanto em Caruaru como no restante do Brasil, e que este momento não seja apenas mais uma página nos livros de História, mas sim um novo tempo na vida de cada Brasileiro.
*Alan Marcionilo é professor de História