O agricultor José Carlos Pereira da Silva fez uma descoberta milenar. Ele estava limpando o barreiro do sítio onde trabalha quando encontrou uma pedra de formato estranho. Logo em seguida se deparou com centenas de outras semelhantes. A curiosidade foi o que lhe fez perceber que o que estavam em suas mão não eram pedras. Eram ossos! E pelo tamanho só poderiam ser de animais gigantes. “Pensei logo que eram de dinossauros. Aí liguei para o dono do sítio em Caruaru” relata o agricultor.
As terras onde seu José Carlos trabalha ficam na Serra do Medo, zona rural de Caruaru. Ele estava enganado sobre os répteis pré-históricos, mas estava certo sobre os bichos gigantes. Na verdade, os fósseis são de animais pertencentes a megafauna, que habitaram a região agreste há pelo menos 10 mil anos, de acordo com os especialistas. Depois de análises de paleontólogos da UFRPE, constatou-se que os ossos são de preguiças gigantes (que tinham é média seis metros de altura), tatus gigantes (que tinham tamanho equivalente a um fusca), tigres dente-de-sabe (felinos com dentes grandes e que ficavam para fora da boca) e mastodontes (parente dos elefantes). “A descoberta é extraordinária porque é raríssimo encontrar uma grande quantidade de fósseis, de várias espécies de animais e em um só lugar. O local pode ser considerado um cemitério da megafauna” comenta o biólogo Alexandre Henrique, um dos entusiastas da descoberta. A poucos metros dalí, tem um paredão repleto de pinturas rupestres. Esse pode ser um forte indício de que os homens que moraram na região matavam suas caças e jogavam os restos mortais no barreiro.
Mas, o que no começo foi uma boa notícia, começou a ser motivo de preocupação. O patrimônio da humanidade, de pelo menos dez milênios, está se perdendo mais rápido do que se pode imaginar. Apesar do dono do sítio ter demonstrado a intenção de proteger os fósseis, ele não tem onde armazená-los e os ossos continuam ao ar livre, expostos aos efeitos do sol, chuva e de seres humanos mal intencionados. O agricultor que encontrou o material diz que algumas peças foram roubadas no início deste mês. “Tinha um osso grande. Pesava mais de 20 quilos. Alguém o carregou durante à noite”, lamenta José Carlos. Ele também conta que um professor de uma universidade, acompanhado de um grupo de alunos, encheu uma caminhonete do material. José Carlos estima que mais da metade dos fósseis foi levado.
Procurado por ser formado em história e fazer parte do poder legislativo, o vereador Gilberto de Dora (PSB) se disse indignado com o que está acontecendo. “Esses fósseis não tem valor comercial, mas para a humanidade o valor é imensurável. O município deveria ter feito algo assim que soube da existência deles. Por isso, a partir de agora, proteger esse patrimônio será uma missão para mim” promete o parlamentar. Já na sessão desta terça-feira (16), Gilberto de Dora apresentou indicações ao Iphan (Instituto do Patrimônio Histórico Nacional) e a Fundarpe. Também foi apresentado um requerimento destinado ao poder executivo para a criação do Museu da Megafauna. Todos aprovados por unanimidade na Câmara. “Minha ideia é que os exemplares sejam expostos para visitação de estudante e pesquisadores. Não tenho dúvidas de que servirá de uma ótima ferramenta pedagógica além de estimular o turismo na cidade” argumenta o vereador
Mas se algo for feito, é necessário que seja rápido. Antes que o clima e o homem destruam as centenas de peças que restaram do quebra-cabeça. Caso contrário, pode ser tarde demais. Como disse o biólogo Alexandre Henrique “dessa forma, estamos apagando nossa memória. Os fósseis são uma evidência da nossa evolução e são essenciais para entendermos melhor sobre vida”.
