Com a vitória em outubro de 2012, o Prefeito José Queiroz fez as pazes com a população, depois de passar três anos e meio numa relação marcada por atritos e rusgas. O novo mandato teve início em clima de lua de mel, paz e amor, entre a gestão e a população. Ressoando de maneira firme os ecos dos discursos proferidos na posse.
Foi quando foi prometido pelo Prefeito e pelos vereadores, que a era do fisiologismo, clientelismo e da velha política teria chegando ao fim. Eles seriam substituídos pela transparência, eficiência e por uma gestão democrática e participativa.
Porém exatos um mês após o início do mandato, dia 31 de janeiro, com a aprovação do PCC para a educação, elaborado nas sombras e aprovado celeremente pela Câmara. A atual administração municipal entrou num verdadeiro inferno astral, arrastando também instantaneamente o legislativo municipal.
Embora o prefeito tenha conseguido aprovar celeremente um Plano de Cargos e Carreiras que atendia plenamente seus interesses, sem negociar com a categoria e com a anuência dos vereadores. Essa sua vitória está mais para uma vitória de Pirro, rei do Épiro: venceu, mas para isso consumiu suas reservas políticas e ocasionou tantas perdas, que teve mais sabor de uma derrota. Fica marcante a frase proferida por Pirro, após derrotar o exército romano, e que poderia ser repetida tranquilamente por Queiroz: “ outra vitória dessas e nós estamos acabados”.
Desde a aprovação do PCC que uma verdadeira urucubaca baixou sobre o Palácio Municipal, demonstrando que a gestão não esperava uma luta tão prolongada e desgastante. Tudo o que a Prefeitura realizou nesses quase oito meses de governo, foi e está sendo eclipsado pela luta gerada pela outorga do PCC.
Igual ao mote numa embolada, tudo volta a essa tema, se a prefeitura transferiu a feira das cohabs ou outras ações, a resposta vem de imediato: “fez, mas o prefeito é inimigo da educação e prejudicou os professores municipais”.Tão acirrado está o clima na cidade, que o gestor municipal está ausente em vários atos públicos evitando os protestos, que literalmente o caçam pela cidade e o constrangem publicamente.
Também foram sugados por esse redemoinho o legislativo municipal, que num afã de agradar o prefeito em início de mandato, os vereadores promoveram cenas bizarras na política local; aprovando sem ler e defendendo sem nenhum conteúdo o indefensável.
Até vereadores que assumiam o personagem de detentores do voto de opinião e de independência, nesse processo desidrataram e estão menor que na legislatura anterior, nivelados ao que há de pior na Câmara Municipal pela opinião pública. O único que está lucrando com esse bate cabeças é Jajá, que está preenchendo um vácuo deixado pela subordinação da Casa ao executivo municipal.
Outros que foram arrastados para a lama, são os membros dos partidos de esquerda que fazem parte da base municipal, para eles os objetivos antes da crise estourar eram bem claros. Ganhar visibilidade ocupando cargos na máquina municipal, uma plataforma, para se tornarem conhecidos na cidade e posteriormente darem um voo solo, se descolando das oligarquias municipais.
Porém essa vinculação está se convertendo numa verdadeira âncora, puxando-os para baixo e os desgastando com a sociedade organizada. Pois ao procurarem discutir as pautas tão caras às esquerdas em geral como: educação, serviços públicos e o papel do poder público em Caruaru; ampliando o alcance do seu projeto de poder, são cobrados pelo seu silêncio nas questões municipais, acusados de serem críticos em relação às gestões federais e estaduais, mas cegos em relação ao governo municipal. Vistos com ceticismo, pois pairam sobre eles a percepção que perderam a independência via cooptação. Diminuindo assim a sua capacidade de dialogo e legitimidade entre os parceiros históricos das esquerdas: universidades públicas, sindicatos, movimentos estudantis e sociais.
Embora a prefeitura tenha tentado dar uma virada na luta, pedindo a ilegalidade das paradas ou veiculado propaganda sobre a qualidade da educação municipal. Essas estratégias se revelaram ineficientes, pois os professores vêm sabendo usar de maneira eficaz as manifestações e as redes sociais para descontruir os argumentos da gestão municipal. Postando fotos dos contracheques e das condições de trabalhos nas escolas municipais e agora finalmente levando a briga para outro patamar fiscalizando a aplicação dos recursos municipais na educação.
Se há uma categoria que conta com a simpatia da sociedade são os professores, afinal qualquer pessoa medianamente informada sabe a situação da educação pública. A desvalorização e as reais condições de trabalho dos professores no Brasil são amplamente conhecidas, e tentar taxar os professores caruaruenses de marajás, não colou e nem vai colar.
A saída desse impasse que está travando a cidade, é a efetiva rediscussão do PCC. Não falo em anular esse e restaurar plenamente o anterior, mas discutir plenamente os ajustes necessários, principalmente no nó górdio, a questão financeira. Elaborando uma proposta de consenso entre os interesses da categoria e da prefeitura. Afinal como disse Lenin, muitas vezes numa luta, é necessário recuar um passo para poder avançar dois. Rever o PCC, é dar o passo atrás para que a gestão destrave e cidade avance.
*Mário Benning é professor e analista político.
