Artigo – Chegou dezesseis: as luzes do carrossel e a fila do ingresso – por Sandro Vila Nova*

Mário Flávio - 06.01.2016 às 14:59h

Nos finais de ano a gente visita e revisita familiares e amigos. De quando em vez reencontramos pessoas e lembranças daquilo que fomos e fizemos no(s) ano(s) anterior(es), assumindo isso como que fosse um ponto de partida para o ano que chega, sempre tão cheio de esperanças e promessas.
Às vezes essa (re)visita fica para outra hora, é bem verdade. É que reencontros só devem acontecer no momento certo. E “tudo tem seu tempo debaixo do céu (ou é do sol?)”… Desígnios de um relógio celeste oculto? Necessidade de se acumularem as experiências? Não sabemos. Vínculos não se importam nem com a distância nem com o tempo. Deixemos a filosofia superficial à parte nessa leitura, e passemos logo à reflexão prática. Sobretudo nas “resoluções de final de ano” devemos ser assim práticos, objetivos, traçando metas e focando nas realizações! Pensar como se chegará aos resultados também é necessário. A ação sem planejamento tende a não chegar a lugar algum, da mesma forma que o planejamento sem a ação é estéril. Assim, tomaremos apenas uma resolução: tod@s os que decidirem participar terão de fazer e manter com determinação essa escolha. Ainda que seja “iniciar um regime”, “apertar o cinto para juntar um dinheiro”, ou somente “colocar a leitura em dia”. 

Por conseguinte, depois de definido o que se quer, trabalhemos e possamos ir um pouquinho além para “dobrar a meta”. Às leituras juntemos as atitudes e aproveitemos para atualizar o ano de dezesseis (e nossas vidas) como um verdadeiro ano novo e não reprise de um filme conhecido. Tratando-se da opção de atualizar leituras, o “Feliz ano velho” é a revisitação a Marcelo Rubens Paiva sempre recomendada por uma professora e grande amiga. Ela é uma dessas pessoas da paz que leva a luta pacientemente até o fim (e até no nome). É uma daquelas guerreiras admiráveis por uma sociedade sustentável em todos os aspectos. 

Para ir além da primeira revisitação, lembrei-me que no final do ano passado pude viver a feliz oportunidade de compartilhar com uma outra educadora-amiga e com um outro amigo-educador momentos de reflexão sobre a história política nordestina e nacional e sobre como os grupos e famílias tradicionais formam “feudos”, ou “currais eleitorais”, sob a tutela estatal de características clientelistas e paternalistas (estes conceitos parecem bem conhecidos, contudo, não o são, é preciso pesquisar). Aprendi com o amigo professor a construir as condições de ir à luta por direitos, e justamente com as professoras amigas que aprendi a roçar utopia e colher mudanças. Hoje, mais uma vez, respondendo ao convite tácito de minha companheira de reflexão, pude ir além nas leituras e revisitar o universo amadiano. 

 E já emendei (re)começando a leitura de “Capitães de Areia” que muito serve à análise tão difícil de se fazer em se tratando de “aristocracias” e “oligarquias” locais. A mente me veio a imagem de um carrossel em ação. Imaginação é tudo. Se pode ser imaginado, pode ser feito! Mas por que se meter com esse carrossel? Para quê mexer com pessoas que vivem querendo ficar coladas no sobe-e-desce do principal equipamento do parque de diversões dessa gente granfina e cheia de fidalguia?! Mas, se não nos metermos com a tal política ou com a Política com “P” maiúsculo seremos aqueles analfabetos tão bem descritos pelo dramaturgo alemão. 

Então, pude perceber que ninguém estaria no “bloco do eu sozinho” esse ano. Ao contrário disso, senti ter mais gente daquela capaz de fazer diferente e destaquei na minha segunda leitura um momento sublime: “esqueceram-se de que não tinham família, dinheiro, que eram vistos como meros ladrões… Eram, mais do que nunca, crianças sob o brilho das luzes do Grande Carrossel Japonês”.

Não importa a nacionalidade da ideia, seja o “carousel” francês, o “trivoli” ou “tivoli” de Copenhaguem e/ou mesmo o “carusello” napolitano, como me mostra a enciclopédia digital da rede mundial de computadores, o brinquedo desperta interesses e vontades, principalmente pelas luzes… daí ser tão parecido com o jogo da disputa por poder, cheio de holofotes e brilhos e cores.

Ah, essa “roda que carrega o destino pra lá”, máquina que utiliza bombas mecânicas em um eixo central vertical para girar e ascender em geral cavalinhos de todas as cores (às vezes carrinhos e outras figuras) montados por seres plenos de sorrisos nos lábios, espelhando os lábios dos outros que os assistem e os aguardam do lado de fora do cercado… O carrossel é o mais perfeito estado de graça. Tanto que a ideia foi complementada e se criou a roda gigante. Proporções maiores, maior sobe-e-desce para nossa alegria!

Aqui em Caruaru, neste ano de eleição, já contamos com quase uma dúzia ou mais na fila. Todos de tíquetes nas mãos. E outros ainda a se empurrar e se dirigindo à bilheteria… Como se diz, já que compramos o ingresso não dá para voltar atrás agora. É preciso ser um “caso perdido” como diria o poeta uruguaio Mário Benedetti, é preciso ter lado. E também a paciência revolucionária de fazer sua parte no trabalho formiguinha! É preciso assumir a postura de tentar contribuir com o que for possível. Acreditar em si quando já estamos cansados de promessas não cumpridas dos outros. Fazer valer a voz e a vontade dos milhares de corações que tenham coragem de ir avante! E há muitas pessoas boas para a política. 

 Há “gente fina elegante e sincera”, mulheres com a altivez e a coragem de avançar, homens livres e de bons costumes aptos a realizarem coletivamente esse trabalho, há uma juventude que já mostrou a capacidade de “seguir em frente e que constrói a manhã desejada”.

É verdade que são poucas as vagas nas fileiras e nas figuras desse carrossel de dezesseis. Quanto mais próximo da força-motriz melhor se escuta a melodia e se sente a velocidade do centro. Quanto mais fora do cercado não se enxerga as luzes. Não é fácil entrar no brinquedo com ele em movimento. Não é comum ter alguém com a mão estendida para fora esperando que um “aventureiro” (um Pedro-bala, um segure firme e seja puxado para cima.

É chegada a hora de fazer acontecer em Caruaru, o século XXI não é mais o tempo para as velhas estruturas de há décadas e centenas de anos. Isto é o que nos moverá, então: esse espírito ávido por mudanças, essa gana de não se submeter às imposições do que estão no poder, assim como fora feito nas “luzes” dos primeiros dezessete anos do século XIX… Mas deixemos esse bicentenário para outro momento.

*Sandro Vila Nova é servidor público e cidadão esperançoso em ver mais gente do povo com sorrisos nos lábios.