A desconfiança da presidenta Dilma Rousseff com relação ao seu vice Michel Temer, tornou-se mais do que nunca justificável após o “vazamento” daquela já famosa carta, num momento em que Eduardo Cunha – amigo pessoal de Temer e arqui-inimigo .do governo – incendiava o país com a aceitação do pedido de abertura do processo de impeachment. Porém, a desconfiança não recai sobre a sinistra personalidade do vice-presidente, mas principalmente sobre o caráter ambivalente e contraditório do partido que ele comanda há anos. Temer e o PMDB são como carne e (C) unha, inseparáveis.
E por que são assim? Com a redemocratização do Brasil em 1985/86, o PMDB perdera seu elã democrático e republicano ao se constituir num cartório de vários donos. Sem consistência ideológica e programática, o partido de Ulisses Guimarães, ficou refém do caudilhismo e da bilontragem de espécimes como José Sarney, Renan Calheiros e Eduardo Cunha. Portanto, numa sigla que se define pelos interesses de caudilhos retrógrados e oportunistas, pouca influência sobra para perfis liberais ou progressistas como os de Roberto Requião, ex-governador e atual senador pelo Paraná.
Mas o que mais se pode lastimar nisso tudo, senão o fato de há trinta anos assistirmos passíveis a hegemonia dos interesses mesquinhos desta agremiação sobre os interesses da nação. Pois, deste então, o ritmo do jogo político nas duas casas (câmara e senado) bem como da governabilidade do país, tem dependido diretamente da arbitragem do PMDB. Como vemos agora, tais interesses podem levar o pais a avançar para o “bem” ou para o “mal”. Arbitragem – diga-se de passagem – que tem pendulado para mais lado do achincalhamento da política.
E, com efeito, os demais partidos – da direita à esquerda – se achincalham também, na medida em que são forçados a perder certa coerência ideológica e programática em nome da governabilidade. As negociatas e chantagens do PMDB por cargos, ministérios e dinheiro estimulam a sua reprodução por meio da criação de legendas pequenas, que a ele se alia numa espécie de blocão para a defesa das negociatas e blindagem dos membros afinados com tal perspectiva. Seu modus operandi constitui um grave problema a política brasileira, pois fortalece e amplia a esperteza e o oportunismo em detrimento da ética e da qualidade do debate ideológico.
E mais: o caráter ambivalente do PMDB enfraquece para o cidadão comum a clareza, coerência e solidez das posições de pensamentos e ações. A sua presença impõe como regra a mistura e a confusão – a sopa ideológica. O PMDB é um partido hermafrodito, pois sua ”genitália” é composta tanto de elementos da situação como da oposição. Uma posição dúbia, porém cômoda, já que de uma forma ou de outra ele estará sempre no poder. Infelizmente isso é o que o torna forte e decisivo neste fracassado modelo político.
É por isso que as figuras de Eduardo Cunha (oposição) e Michel Temer (“aliado”) sintetizam tão bem o PMDB como uma Hydra, ou seja, nosso monstro partidário de várias cabeças. Contra o cinismo e o escárnio da Hydra PMDBISTA só nos resta uma alternativa: cortar as suas principais cabeças e não deixar que elas se multipliquem como acontece na mitologia grega. Mas quem serão os Hercules que irão realizar esta epopeia?
*José Adilson Filho é Mestre em história e doutor em sociologia e professor na universidade Estadual da Paraíba e na Fafica.
