Por muito tempo, o ministro Alexandre de Moraes foi visto como o rosto firme do Supremo Tribunal Federal (STF) na contenção de supostas ameaças à democracia. Sua postura dura diante de ataques às instituições angariou aplausos e apoio tanto de setores progressistas quanto de uma parte do centro político que via no magistrado um contrapeso necessário à radicalização política.
Mas o tempo passou, o contexto mudou — e os métodos de Moraes, cada vez mais questionados, parecem ter ultrapassado o limite da prudência. A decretação da prisão domiciliar de Jair Bolsonaro (PL), na segunda-feira (4), foi o estopim de uma nova crise. Para muitos, não se trata apenas de mais uma decisão isolada, mas do ponto em que o ativismo judicial começa a gerar desgaste interno e externo para o Supremo. E o mais grave: começa a ameaçar a legitimidade de uma Corte que, até aqui, se sustentava no argumento da defesa da democracia.
A nota divulgada nesta terça-feira (6) pela Transparência Internacional Brasil é sintomática. A entidade, que foi uma das mais ativas na cobrança por responsabilização após os atos de 8 de janeiro, agora expressa preocupação com os excessos da Corte — uma mudança de tom que não passa despercebida. Pior ainda para Moraes é o fato de que os Estados Unidos, por meio de nota diplomática, classificaram a prisão de Bolsonaro como perseguição política.
A pressão internacional aumenta, e o Brasil volta a ser manchete em tom negativo. No Congresso, a insatisfação transbordou. Deputados e senadores de oposição ocuparam as mesas da Câmara e do Senado, trancaram a pauta e prometem não recuar enquanto suas demandas não forem atendidas, especialmente a votação de uma proposta de anistia aos envolvidos no 8 de janeiro. O ato, embora simbólico, sinaliza que o Legislativo não está disposto a ser coadjuvante em uma disputa institucional que ameaça se agravar.
Ainda mais significativo, talvez, seja o desconforto interno no próprio STF. Segundo a Folha de S. Paulo, ministros da Corte consideram a decisão de Moraes “exagerada e insustentável”. Alguns já falam em isolar o magistrado, que teria ignorado ponderações e atuado sozinho, sem a devida concertação institucional. A imagem de Moraes como liderança coesa da Corte começa a se desfazer, e seu protagonismo, antes admirado por muitos, se transforma em fator de instabilidade.
Para agravar a situação, o ministro enfrenta agora uma denúncia grave feita pela organização Civilization Works, que acusa Moraes de utilizar servidores do TSE — onde também atua — para conduzir investigações paralelas e sem respaldo legal, violando, inclusive, a Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD). As acusações se baseiam em conversas vazadas entre seu ex-assessor no TSE, Eduardo Tagliaferro, e outros servidores. Se confirmadas, as ações podem representar um escândalo institucional de grandes proporções.
A realidade é que o protagonismo de Alexandre de Moraes, inicialmente justificado pela necessidade de contenção de discursos golpistas, tem se deslocado para o campo da insegurança jurídica. E esse movimento — agora contestado por entidades, pela imprensa, pelo Congresso e até por ministros do STF — ameaça corroer a credibilidade da instituição que deveria ser o último bastião da moderação.
Exagero, quando se torna regra, deixa de ser exceção justificável. E Moraes, que tanto combateu o autoritarismo, corre o risco de ser lembrado por ter flertado perigosamente com ele.

