A entrevista concedida pelo ministro da Previdência Social, Wolney Queiroz, ao Correio Braziliense, expõe um dos maiores dilemas do governo Lula em 2025: como enfrentar a crise da Previdência em meio à turbulência política que domina Brasília. Em pouco mais de três meses no cargo, o pernambucano mostra-se confiante de que há uma “boa história para contar na CPMI”, mas deixa claro que o ambiente de confronto no Congresso pode comprometer até mesmo pautas urgentes, como a reparação aos aposentados atingidos por fraudes.
Wolney repete um mantra que soa como recado direto ao Parlamento: transparência, diálogo e disposição de devolver aos beneficiários o que lhes é de direito. Ao mesmo tempo, reconhece que a politização excessiva ameaça desvirtuar o debate. Sua fala aponta para um governo que tenta equilibrar contas, corrigir distorções históricas e, sobretudo, recuperar a confiança da população num sistema que há anos vive sob desconfiança.
A defesa de uma nova fórmula
Um dos pontos centrais da entrevista é a necessidade de encontrar uma “fórmula” para garantir a sustentabilidade da Previdência. Para Wolney, isso passa pelo aumento da formalização do mercado de trabalho — um desafio que depende não apenas de políticas previdenciárias, mas de uma agenda econômica ampla e articulada. A visão é correta, mas não basta diagnosticar; é preciso traduzir em medidas concretas capazes de gerar empregos, atrair investimentos e reduzir a informalidade.
Ao afirmar que “a defesa da soberania nacional pode nos aproximar de outras camadas com as quais perdemos a conexão”, o ministro tenta reposicionar a Previdência como pauta social e política de alcance coletivo. Mais do que números, trata-se de um debate sobre dignidade e sobre como o Estado se relaciona com seus cidadãos.
O risco da CPMI
Não é segredo que Comissões Parlamentares Mistas de Inquérito, muitas vezes, deixam de ser espaços de esclarecimento e passam a ser arenas de embate político. Wolney parece consciente desse risco. Ao dizer que o governo tem uma boa história a apresentar, sinaliza que pretende jogar na defensiva, apostando em transparência como escudo. A questão é saber se isso será suficiente para enfrentar o apetite oposicionista por desgastar o Planalto em pleno ciclo pré-eleitoral.
Um teste para além da Previdência
Wolney Queiroz encara sua gestão como uma travessia: organizar a casa, proteger os mais vulneráveis e, ao mesmo tempo, blindar o governo contra um desgaste maior no Congresso. Sua postura cautelosa, mas firme, sugere que compreende a dimensão política do cargo. No entanto, a Previdência não se sustenta apenas com boas intenções. Exige capacidade técnica, articulação e coragem para enfrentar privilégios históricos.
Em resumo, a entrevista mostra um ministro que tenta se firmar em meio à tempestade. A boa história que Wolney promete contar na CPMI dependerá menos do discurso e mais da capacidade de entregar soluções reais a milhões de brasileiros que esperam, com razão, justiça e estabilidade em sua aposentadoria.
