A decisão monocrática do ministro Gilmar Mendes, que retirou do Senado a prerrogativa de receber pedidos de impeachment contra ministros do STF e concentrou essa atribuição no procurador-geral da República, provocou um terremoto institucional em Brasília. Além de restringir quem pode apresentar denúncias, a liminar alterou o quórum necessário para que um processo avance: saiu da maioria simples e passou para dois terços dos senadores. O movimento, visto como uma “canetada” que reescreve atribuições constitucionais do Legislativo, foi interpretado no Congresso como um gesto de blindagem do Supremo.
Nos bastidores, a leitura predominante é de que o STF está se protegendo do que enxerga como uma provável vitória das forças de centro-direita nas eleições do ano que vem. A expectativa é de um Senado ainda mais conservador e com maior peso das forças políticas hoje na oposição. Parte expressiva desses grupos tem como objetivo declarado destituir ministros do Supremo, sendo Alexandre de Moraes o principal alvo. Em meio a esse cenário, a liminar de Gilmar Mendes surge como uma muralha preventiva, ampliando a distância entre os poderes e desequilibrando a relação institucional a favor do Judiciário.
A reação do Senado foi imediata. O presidente da Casa, Davi Alcolumbre, criticou duramente a decisão, classificando-a como uma interferência inaceitável na autonomia do Parlamento. Segundo ele, o STF “não pode reescrever o papel do Legislativo” nem retirar competências que a Constituição atribui ao Senado desde sua formação. O líder do governo, Randolfe Rodrigues — tradicional aliado do Supremo e voz moderada no cenário político — também elevou o tom, afirmando que a decisão “extrapolou os limites” e que “o Senado não pode abrir mão de suas prerrogativas históricas”.
O pano de fundo dessa disputa é ainda mais grave. De um lado, o Supremo vê nas investidas do Congresso um avanço sobre o dinheiro público e um medo crescente de investigações sobre corrupção, interpretando boa parte das iniciativas parlamentares como tentativas de enfraquecer o controle institucional disfarçadas de política. Do outro, uma ampla parcela do Legislativo — maior que o bolsonarismo e mais abrangente ideologicamente — acusa o STF de atuar politicamente, interferindo em outros poderes, protegendo o Executivo e perseguindo críticos com medidas consideradas de exceção.
Esses dois vetores — a politicagem cotidiana e o choque estrutural de longo alcance — compõem uma crise permanente, sem sinais de normalização. O ambiente atual é de desconfiança profunda e de disputas por poder que se retroalimentam, criando a sensação de que não há mais acordos duradouros possíveis. O Brasil vive um momento em que qualquer gesto institucional é interpretado como um ataque, e cada contra-ataque aprofunda ainda mais o fosso entre as instituições.
Talvez — e aqui entra um tom especulativo inevitável — o desfecho dessa crise só venha após um choque maior, uma ruptura capaz de forçar a reorganização das forças políticas e institucionais. Mas, se esse momento chegar, suas consequências são imprevisíveis, tanto para a democracia quanto para o equilíbrio entre os poderes.

