A prisão preventiva de Jair Bolsonaro, somada à sua já consolidada inelegibilidade, impõe à direita brasileira um dilema que muitos de seus quadros ainda resistem a encarar: é impossível disputar a eleição presidencial de 2026 tendo o ex-presidente como referência central do projeto eleitoral. Faltando um ano para a eleição, insistir em seu nome, mesmo simbolicamente, deixou de ser estratégia e virou delírio político — alimentado apenas pelo núcleo mais fanático do bolsonarismo. A disputa do ano que vem exige pragmatismo, leitura fria da conjuntura e, sobretudo, um novo protagonista.
Bolsonaro não disputará. Não terá condições judiciais, políticas e nem estruturais de liderar uma campanha nacional. Mais que isso: sua situação cria um vácuo de liderança que a direita precisa preencher urgentemente se quiser enfrentar um presidente Lula que buscará a reeleição fortalecendo alianças, tentando ampliar sua base, mesmo diante a da fragilidade econômica.
Nesse cenário, vários nomes surgem — ainda sem consenso — como possíveis alternativas dentro da direita e do campo liberal-conservador. O governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), é o mais citado entre aliados e lideranças empresariais, por reunir viabilidade administrativa e perfil moderado. Já a senadora Tereza Cristina (PP-MS) aparece como opção capaz de dialogar com o agronegócio e setores conservadores sem reproduzir o discurso mais radical. No campo político conservador, surgem alternativas como o governador de Minas Gerais, Romeu Zema (Novo), com sua gestão sendo vista por parte da elite econômica como um ativo, e Ronaldo Caiado (União Brasil), governador de Goiás que tenta se colocar como liderança nacional do conservadorismo ruralista. Há ainda quem defenda que o ex-ministro Sergio Moro (União Brasil-PR) poderia tentar se reposicionar, apesar das turbulências judiciais recentes. Existem ainda os nomes dos governadores do Paraná, Ratinho Júnior e do Rio Grande do Sul, Eduardo Leite, ambos do PSD. Sem falar dentro da própria família do ex-presidente, entre eles a ex-primeira-dama, Michelle Bolsonaro e o senador Flávio Bolsonaro, ambos do PL.
O fato é que, sem Bolsonaro, a direita terá de encontrar um nome que reúna competitividade, discurso e capacidade de ampliar apoios para além do núcleo radicalizado. A insistência em manter o ex-presidente como espírito guia da campanha é improdutiva eleitoralmente e perigosa estrategicamente. O lulismo já escolheu seu candidato — Lula — e trabalha para consolidar um projeto de continuidade. A direita, por sua vez, ainda precisa descobrir o seu. E o relógio eleitoral está correndo. A conferir.
