
A COP30, sediada em Belém (PA), chegou ao palco internacional com grande expectativa — mas vai sendo rapidamente vista como um cenário de aparências, contradições e falhas que põem em xeque seu real compromisso com o clima. Eis os principais problemas:
Ausência de liderança
Os grandes emissores acabam por não estar à altura. A ausência de líderes de potências como os Estados Unidos, China e Índia — ou de representantes de alto nível — compromete a legitimidade da cúpula. Sem o protagonismo desses países, as decisões ficam fragilizadas e a sensação de espetáculo supera a de efetividade.
Protestos, tensões e descontentamento
O evento também se tornou palco de manifestações. Grupos indígenas da Amazônia bloquearam o acesso ao local em Belém, exigindo interlocução plenamente respeitosa sobre terras, justiça climática e promessas não cumpridas. Tais protestos denunciam que, na prática, muitos dos debates continuam distantes dos povos diretamente afetados — o que mina a credibilidade.
Preços abusivos, hospedagens precárias e “greenwashing” local
Relatos apontam para hospedagens escassas e caríssimas em Belém, com preços que afastaram delegações e ONGs. Além disso, críticos denunciam que a presença em peso de lobistas da indústria de combustíveis fósseis — segundo alguns relatórios um em cada 25 participantes — revela captura corporativa. Ou seja: de discurso climático sério, resta o palco; de ação efetiva, resta marketing.
Financiamento e grandes promessas sem entrega
O compromisso de financiar adaptações e mitigação por parte dos países ricos está em queda livre. Um levantamento destacou que as promessas de financiamento quase não evoluem e que países como a Alemanha recuaram em claras demonstrações de retrocesso. Não basta reivindicar ação: precisa haver entrega. E nessa conta, a COP30 está devendo — e muito.
Falas e atitudes embaraçosas — o caso da Alemanha
O chanceler alemão Friedrich Merz deu uma declaração que se tornará emblemática para a cúpula: disse que estava “feliz por deixar Belém” e questionou a experiência de jornalismo local, numa fala considerada preconceituosa pela sociedade civil paraense. Quando o anfitrião ou alguém com peso diplomático repete esse tipo de discurso, o evento perde ainda mais moral — como palco de transformações difíceis, mas necessárias.
Se a COP30 pretendia reafirmar a relevância do multilateralismo climático, ela se expôs como um evento em risco de ser lembrado mais pela crise logística, pela ausência de compromissos reais e pela retórica vazia do que por soluções transformadoras. Como bem resumiu o primeiro-ministro da Papua Nova Guiné, James Marape, estes encontros são “longos em fala e curtos em ação”.
Sem mudanças profundas na estrutura, no financiamento, no protagonismo dos mais afetados e na responsabilidade daqueles que poluem mais, copular com o clima continuará sendo pouco mais que um grande evento — e a COP30 corre risco de entrar para a história como mais um símbolo de espetáculo sem substâncias.