Decisão acertada de presidentes da Câmara e Senado em não ir ao ato para lembrar o 8 de janeiro

Mário Flávio - 07.01.2026 às 19:20h

A decisão dos presidentes da Câmara dos Deputados, Hugo Motta (Republicanos-PB), e do Senado Federal, Davi Alcolumbre (União-AP), de não participarem do ato organizado pelo Palácio do Planalto para lembrar o 8 de Janeiro de 2023 é correta, madura e institucionalmente defensável. Ao optar pela ausência, os chefes das duas Casas do Congresso evitam a transformação de uma data traumática em instrumento de disputa política permanente.

Dois anos depois dos episódios que resultaram na depredação das sedes dos Três Poderes, é preciso separar memória de exploração política. O que ocorreu naquele dia não foi uma tentativa real e organizada de golpe de Estado, como vem sendo repetido à exaustão no discurso oficial. Tratou-se, sim, de um bando de desajustados, sem liderança, sem estratégia e sem qualquer apoio institucional, promovendo balbúrdia, vandalismo e atos criminosos que já vêm sendo punidos pela Justiça.

A insistência do governo federal em manter cerimônias anuais com forte carga simbólica e narrativa única acaba mais aprofundando divisões do que fortalecendo a democracia. A ausência do Congresso, nesse contexto, funciona como um freio saudável à espetacularização do episódio. Não cabe ao Legislativo endossar eventos que, na prática, servem mais para reafirmação política de um Poder sobre os outros do que para reflexão institucional equilibrada.

O distanciamento entre Legislativo e Executivo, agravado pelo debate sobre a anistia aos envolvidos nos atos, também ajuda a explicar a decisão. Ainda assim, não se trata de ruptura, mas de afirmação de autonomia. Hugo Motta segue a postura adotada por Arthur Lira em anos anteriores, enquanto Davi Alcolumbre mantém uma linha de cautela institucional, apesar de o presidente Lula insistir que não há crise na relação com o Senado.

Outro ponto relevante é que o Congresso Nacional não tem obrigação de aderir a agendas simbólicas definidas pelo Executivo ou pelo Judiciário. O Parlamento representa a pluralidade do país e, justamente por isso, precisa evitar gestos que possam ser interpretados como alinhamento automático a uma narrativa oficial que ignora nuances dos fatos.

Punir os responsáveis pelos excessos do 8 de Janeiro é necessário e legítimo. Transformar o episódio em um marco político permanente, porém, não contribui para a pacificação nacional. Ao não comparecerem ao ato, os presidentes da Câmara e do Senado sinalizam que a democracia se fortalece menos com rituais e mais com respeito às instituições, equilíbrio entre os Poderes e responsabilidade no uso da memória recente.