EUA agem por interesse próprio: decisão de Trump sobre tarifas não atende nem Lula nem Bolsonaro

Mário Flávio - 21.11.2025 às 07:09h

A decisão do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, de zerar a tarifa adicional de 40% sobre mais de 200 produtos agrícolas brasileiros pode ter sido comemorada por Brasília — tanto por aliados de Lula quanto por setores que antes exaltavam Bolsonaro —, mas nasce, sobretudo, das prioridades econômicas norte-americanas. O gesto, anunciado nesta quinta-feira (20), não é recompensa política, tampouco sinal de alinhamento ideológico: trata-se de uma medida essencialmente pragmática para conter pressões inflacionárias internas nos EUA e ajustar interesses estratégicos da Casa Branca.

Embora o Itamaraty tenha mencionado a ligação entre Lula e Trump, em 6 de outubro, como elemento que “ajudou a destravar” negociações, especialistas foram diretos ao apontar onde realmente mora a motivação americana. Roberto Azevêdo, ex-diretor-geral da OMC, afirmou que a decisão tem clara relação com o esforço de Washington para reduzir custos internos — especialmente de alimentos —, e não decorre de qualquer contrapartida oferecida pelo Brasil. Em outras palavras, os Estados Unidos recuam quando isso lhes convém, não quando um governante brasileiro faz um telefonema.

A ordem executiva beneficia setores fortes do agronegócio nacional, como carne bovina, café, frutas e derivados de petróleo, e corrige parte dos excessos do tarifaço imposto em julho. O analista Gustavo Cruz, da RB Investimentos, avaliou o recuo como “melhor do que muita gente imaginava”, reconhecendo que frigoríficos e exportadores agora têm algum alívio após meses de retração, demissões e queda nas vendas externas.

Ainda assim, o movimento está longe de estabelecer uma relação comercial equilibrada. Sergio Vale, economista-chefe da MB Associados, lembrou que a estratégia protecionista de Trump segue viva: as tarifas continuam sendo usadas como instrumento para fortalecer a produção doméstica norte-americana, mantendo a indústria brasileira sob pressão e empurrando empresas a redirecionar oferta ou reduzir operações. A avaliação é compartilhada por Welber Barral, ex-secretário de Comércio Exterior, que destaca que tarifas pesadas — como os 50% sobre aço, alumínio, madeira e móveis, mantidas pela ordem 232 — permanecem intactas, assim como a investigação da Seção 301, que pode criar novos entraves.

Mesmo entre setores contemplados, o alívio é parcial. A CitrusBR destacou avanços para o suco de laranja, mas lembrou que parte dos produtos segue com tarifas-base de 10% e outros sequer entraram na lista. Já a indústria pesqueira, completamente excluída, acusou o governo brasileiro de não priorizar o setor e teme perder espaço para concorrentes que agora acessam o mercado americano sem sobretaxas. O setor movimenta cerca de US$ 300 milhões anuais em exportações aos EUA.

Entidades empresariais, como a Amcham Brasil e a Fiemg, celebraram o recuo, mas com ressalvas importantes: o gesto sinaliza retomada de racionalidade, mas ainda deixa de fora uma parcela significativa da pauta industrial brasileira, que segue sufocada por barreiras historicamente difíceis de derrubar.

No conjunto, a medida representa o maior recuo tarifário desde julho e abre espaço para novas rodadas de negociação. Mas é preciso realismo: não houve vitória diplomática de Lula, tampouco qualquer resquício de saudade aos tempos de Bolsonaro. Os Estados Unidos mudaram de postura porque precisavam resolver um problema interno — e aproveitaram a oportunidade para ajustar seu jogo comercial. O resto é narrativa.