
Durante a cerimônia que marcou os 90 anos do salário mínimo, realizada ontem, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva adotou um tom crítico ao avaliar o papel histórico do piso nacional. Segundo o chefe do Executivo, o valor pago ao longo das décadas “não preenche os requisitos da intenção da lei”, ao falhar em garantir direitos básicos previstos na legislação, como moradia, alimentação, educação e lazer.
Lula destacou que trabalhadores de categorias organizadas, a exemplo de metalúrgicos e bancários, conseguem negociar salários acima do mínimo por meio de sindicatos fortes e acordos coletivos. Já o problema, segundo ele, recai sobre os trabalhadores “não organizados”, como empregadas domésticas, além de aposentados e pensionistas, que dependem diretamente do piso e acabam submetidos a um valor insuficiente para cobrir necessidades essenciais.
No discurso, o presidente também enviou um recado direto ao setor empresarial. Para Lula, o empresário “não seria avarento” se compreendesse que um trabalhador com salário maior teria mais poder de compra e, consequentemente, poderia consumir o próprio produto que ajuda a fabricar, movimentando a economia.
Atualmente, o salário mínimo em vigor é de R$ 1.621, valor que passou a valer em 2026. De acordo com estimativas do Dieese, o reajuste de 6,79% deve injetar cerca de R$ 81,7 bilhões na economia brasileira ao longo do ano, impactando diretamente o consumo e a arrecadação.
Apesar da defesa de um piso mais robusto, Lula reconheceu as limitações práticas do governo para promover aumentos mais expressivos. Segundo ele, “não é fácil” alterar essa lógica, uma vez que existe uma “grande quantidade de pessoas” que recebem o salário mínimo. O presidente lembrou ainda que o piso nacional é o principal sustento não apenas de trabalhadores ativos, mas também de milhões de aposentados e beneficiários do Benefício de Prestação Continuada (BPC), o que torna qualquer reajuste um desafio fiscal e político para a gestão federal.