MPPE diz que vereadores tentaram cooptar policial da inteligência para monitorar investigação sobre desvios em Ipojuca

Mário Flávio - 12.01.2026 às 13:33h

O Ministério Público de Pernambuco (MPPE) afirmou à Justiça que vereadores de Ipojuca tentaram cooptar um comissário da Diretoria de Inteligência da Polícia Civil (Dintel) com o objetivo de monitorar e interferir nas investigações que apuram desvios milionários de emendas parlamentares autorizadas pela Câmara Municipal do município, localizado no Grande Recife.

A informação consta em manifestação do MPPE contrária ao pedido de revogação da prisão preventiva do presidente da Câmara de Ipojuca, Flávio Henrique do Rêgo Souza, conhecido como Flávio do Cartório (PSD). O documento foi obtido pela coluna Segurança, do Jornal do Commercio. Flávio foi preso em 25 de novembro de 2025, um dia antes da deflagração da segunda fase da operação Alvitre, que investiga o suposto esquema de desvios de recursos públicos.

Segundo o Ministério Público, no momento da prisão, Flávio do Cartório estava em um carro estacionado no supermercado Mix Mateus, no bairro de Boa Viagem, Zona Sul do Recife, acompanhado do vice-presidente da Câmara, Professor Eduardo (PSD), do vereador Júlio Marinho (PP) e de um policial lotado na Dintel. Para os promotores, o encontro caracterizou uma “reunião clandestina”.

O presidente e o vice-presidente da Câmara foram autuados em flagrante por suspeita de lavagem de dinheiro, após os policiais encontrarem uma sacola contendo mais de R$ 14 mil em espécie. Durante a abordagem, também foram apreendidas anotações de valores que, segundo os investigadores, indicam a existência de um possível esquema de “rachadinha”. Na audiência de custódia, a Justiça concedeu liberdade provisória aos dois, mas Flávio permaneceu preso devido a um mandado de prisão preventiva já expedido contra ele.

No novo parecer, o Grupo de Atuação Especial no Combate ao Crime Organizado (Gaeco) sustenta que a prisão preventiva do vereador não se baseia apenas na gravidade dos crimes investigados — peculato, corrupção e lavagem de dinheiro —, mas em um fato considerado ainda mais grave. “A cooptação de agente de inteligência do Estado para monitorar a investigação e frustrar a aplicação da lei penal”, destacaram os promotores.

O MPPE também informou que o Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) identificou movimentações financeiras incompatíveis com a renda declarada por Flávio do Cartório. Entre 1º de abril de 2021 e 3 de julho de 2024, o volume financeiro movimentado teria alcançado R$ 3.717.336,86.

Ainda de acordo com o Coaf, foram detectados indícios de fracionamento de depósitos com o objetivo de burlar os limites de notificação obrigatória, além de depósitos em dinheiro realizados por meio de terminais de autoatendimento, sem identificação da origem dos recursos.