Quando se fala em violência, quase sempre a imagem que surge é a do criminoso armado, do traficante que domina territórios, do bandido que age nas sombras. Mas há uma violência ainda mais silenciosa, mais perversa e, muitas vezes, mais mortal: a violência da má gestão pública.
Um bandido pode tirar uma vida com um disparo. Já um governo incompetente ceifa milhares pela soma diária de suas omissões. Quando falta um hospital equipado, quando um posto de saúde não tem médico, quando a ambulância não chega, a morte tem assinatura e não é a do criminoso comum, mas a do gestor incapaz, negligente ou indiferente.
Enquanto o traficante domina ruas, a ausência do Estado domina cidades inteiras. A falta de segurança fortalece o crime, alimenta o medo e aprisiona famílias dentro de suas próprias casas. Para cada tiro disparado, quantas vidas se perdem pela falta de policiamento, por estruturas sucateadas, por investimento que nunca chega?
A educação de má qualidade produz um tipo de violência lenta, acumulada, que empurra jovens para ciclos de pobreza, vulnerabilidade e, muitas vezes, para o próprio crime. O traficante alicia, mas é o governo que, por abandono, prepara terreno fértil para que essa sedução funcione. Mas no Brasil de hoje, o importante é “aprovar” o aluno.
E o saneamento básico? Talvez seja o crime mais disfarçado de todos. Água contaminada, esgoto a céu aberto, doenças que poderiam ter sido evitadas com um simples investimento, tudo isso mata mais do que qualquer facção. Quando uma criança adoece por falta de infraestrutura, o responsável não está na lista de procurados da polícia, mas na cadeia da irresponsabilidade administrativa.
Há quem diga que bandido é bandido. Mas há também o banditismo institucionalizado, feito de licitações malfeitas, prioridades distorcidas e abandono planejado. Se o traficante destrói comunidades abertamente, a má gestão as destrói silenciosamente, todos os dias, sem estardalhaço, sem manchete, sem sirenes.
No fim das contas, a diferença entre um e outro está apenas no método. O resultado, porém, é o mesmo: vidas interrompidas pela ação daqueles que deveriam garantir proteção uns pela arma na mão, outros pela caneta que nunca funciona para servir ao povo. Porque, em algumas administrações, governar não é cuidar. É permitir que o abandono faça o trabalho sujo, e o dinheiro público “desapareça”.
