No segundo domingo de dezembro, os evangélicos celebram o ‘Dia da Bíblia’. A data suscita reflexões sobre o livro e sobre o grupo religioso. Voltando os olhos para Caruaru, vemos que, em contraste com o caráter acolhedor dos seus moradores, a aceitação da presença de evangélicos no município ocorreu de forma lenta. As primeiras décadas do século XX são marcadas por muitos episódios de violência contra os chamados “protestantes”.
No artigo “Os ‘crentes’ em Caruaru”, o escritor Humberto França relata um fato emblemático. Zé Pereira, um dos trabalhadores do coronel Otaviano Tejo, foi atacado e surrado impiedosamente após entregar folhetos evangelísticos na feira do Salgadinho. Preocupado, o coronel designou um dos seus cabras mais valentes, Mané Coité, para fazer a segurança de Zé Pereira. Coité, no entanto, rejeitou a ordem e gritou: “As bibla eu deixo tocá fogo. Inté ajudo. Nova Seita cumigo num xe cria”. A resposta do capanga revela o preconceito enfrentado pelos ‘crentes’ na época de recém-separação da Igreja e do Estado.
Muitos atos violentos foram empreendidos contra os primeiros evangélicos em Caruaru, cujos trabalhos iniciaram pelo casal inglês Charles e Ida Kingston em 1898. Em um primeiro momento, ambos foram bem aceitos – ele era médico e ela, professora e costureira. Porém, com o tempo, a perseguição começou e se alastrou contra todos os que professavam a fé evangélica. Bíblias foram queimadas, homens e mulheres agredidos e mesmo assassinados. Até uma Liga contra Protestantes foi estabelecida, com objetivos bem definidos. Graças a Deus, essa história não termina em capítulos tão sangrentos e obscuros. Muitos aprenderam a ler por causa das Escrituras Sagradas e a proclamação do Evangelho gerou bons frutos. A partir da intervenção das autoridades, os ânimos foram apaziguando e a liberdade religiosa passou a ser exercida com mais efetividade em Caruaru.
Relembrar esta história implica em várias reflexões para hoje. Um século depois dos fatos acima narrados, a proclamação da fé bíblica segue firme. Entretanto, o texto sagrado deve ser interpretado à luz das ferramentas corretas, de cunho gramático-histórico, para que o leitor tenha acesso ao conteúdo divino das Escrituras. Quando isso acontece, a Bíblia deixa de ser um mero livro e suas palavras se tornam espírito e vida, ganhando forma no caráter de quem a adota como regra de fé e prática. Outra reflexão é a necessidade de as pessoas aprenderem a discordar com elegância e entender a essência das palavras do Senhor Jesus, inclusive em trechos como “amai os vossos inimigos e orai pelos que vos perseguem” (Mateus 5:44).
Jénerson Alves é jornalista e poeta