
Nos últimos meses, o Brasil tem apresentado indicadores econômicos considerados positivos.
A redução do desemprego, o controle da inflação e a retomada de alguns setores sinalizam avanços importantes.
Mas existe um ponto que precisa ser observado com mais atenção: a economia que aparece nos números nem sempre é a mesma que o consumidor sente no dia a dia. E essa diferença tem impacto direto no comércio.
Hoje, mesmo com indicadores mais favoráveis, a sensação predominante entre as famílias é de perda de poder de compra. O consumidor continua indo às compras, mas leva menos produtos. Pesquisa preços com mais frequência, substitui marcas e, muitas vezes, recorre ao crédito para manter o consumo básico.
Isso não é apenas percepção — é comportamento. E esse cenário fica ainda mais evidente em períodos como a Páscoa. Nesta semana, muitos consumidores se deparam com preços mais elevados de itens tradicionais, como ovos de chocolate, que frequentemente ultrapassam valores considerados acessíveis para grande parte das famílias, além do bacalhau e de outros peixes típicos da Semana Santa, que também registram aumento significativo de preço.
Na prática, o que se vê é uma adaptação: famílias optando por versões menores, substituindo produtos ou até reduzindo o consumo nessas datas que, historicamente, sempre estiveram ligadas à celebração e à mesa cheia.
O nível de endividamento das famílias segue elevado e se tornou um dos principais fatores de pressão sobre o consumo no Brasil. Hoje, grande parte da renda das famílias já está comprometida com parcelas, especialmente no cartão de crédito e em linhas de financiamento com juros elevados.
Mais do que um indicador econômico, o endividamento passou a fazer parte da rotina das famílias. Ele limita escolhas, reduz a capacidade de planejamento e gera uma sensação constante de aperto no orçamento.
Na prática, muitas famílias não estão apenas consumindo menos — estão tentando reorganizar a vida financeira. O consumo, em muitos casos, deixou de ser uma decisão e passou a ser uma necessidade condicionada ao crédito.
Esse cenário não afeta apenas os números da economia — afeta diretamente a tranquilidade das famílias e a previsibilidade do comércio. Além disso, embora o emprego tenha avançado, a qualidade da renda ainda é um desafio. Muitos trabalhadores estão inseridos em ocupações com menor estabilidade ou remuneração, o que limita a capacidade de consumo e planejamento financeiro.
Na prática, o que se observa é um consumidor mais cauteloso, mais seletivo e, muitas vezes, mais apertado. E isso chega diretamente ao varejo. O lojista percebe essa mudança de forma imediata: ticket médio mais baixo, maior sensibilidade a preço, ciclos de compra mais curtos e maior dependência de promoções.
Por isso, é fundamental compreender que indicadores positivos são importantes, mas não suficientes. Eles mostram direção, mas não revelam, por completo, a intensidade da realidade vivida pelas famílias.
E aqui está o ponto central. Uma economia verdadeiramente saudável é aquela em que os avanços são percebidos no dia a dia das pessoas — no supermercado, nas contas do mês e na capacidade de consumir com tranquilidade.
E esse debate ganha ainda mais relevância no momento atual. O Brasil vive um período decisivo, com o ambiente eleitoral se aproximando, ao mesmo tempo em que o mundo enfrenta um cenário de incertezas, marcado por conflitos geopolíticos e instabilidade econômica global. Esses fatores influenciam diretamente preços, juros, confiança e decisões de consumo.
Diante disso, cresce a importância de olhar para a economia com senso de realidade. Mais do que discursos ou indicadores isolados, é fundamental considerar a vida de quem está nas casas, nas ruas e no comércio — sentindo, diariamente, os efeitos das decisões econômicas. Para que o crescimento seja consistente, é necessário ir além dos números e avançar em questões estruturais: melhoria da renda, redução sustentável do custo do crédito e fortalecimento do equilíbrio financeiro das famílias.
Sem esse alinhamento, corre-se o risco de consolidar uma leitura otimista nos indicadores, enquanto o consumidor — e, consequentemente, o comércio — ainda enfrenta limitações concretas. O desafio do Brasil não é apenas crescer. É fazer esse crescimento chegar, de fato, ao bolso das pessoas.
*Adjar Soares da Silva é Diretor CDL Caruaru e Vice-presidente da FCDL PE
