Opinião – O centro de Caruaru não perdeu clientes, deixou de ser prioridade – por Adjar Soares*

Mário Flávio - 24.03.2026 às 06:52h

Pesquisa da CDL mostra que o centro de Caruaru continua sendo frequentado por milhares de pessoas. O desafio não é falta de consumidores, mas mobilidade, infraestrutura e atenção ao coração econômico da cidade. Nos últimos anos, tornou-se comum ouvir uma frase preocupante: “o centro da cidade está acabando.”

Lojas fechadas, imóveis vazios e comerciantes enfrentando dificuldades. Muitas vezes, o primeiro culpado apontado é a internet. De fato, o comércio eletrônico mudou profundamente o comportamento do consumidor. Hoje o cliente pesquisa preços no celular, compara produtos em segundos e recebe compras em casa com poucos cliques.

Pesquisas da Confederação Nacional de Dirigentes Lojistas e do SPC Brasil mostram que mais de 70% dos brasileiros já compram online regularmente. Mas reduzir os desafios do comércio de rua apenas ao avanço do digital é simplificar demais o problema.

Em cidades com forte tradição comercial como Caruaru, o centro continua sendo um espaço de grande circulação de pessoas. Uma pesquisa realizada pela CDL mostrou que 88% dos consumidores frequentam o centro ao menos uma vez por semana, e muitos passam pela região diariamente.

Ou seja, o consumidor continua presente. O que existe, na verdade, é uma insatisfação crescente com a experiência urbana. Na mesma pesquisa, 73% das pessoas apontaram dificuldade para encontrar estacionamento, mais da metade avaliou a infraestrutura como regular ou ruim e quase 30% relataram preocupação com segurança.

Quando ir ao centro significa enfrentar trânsito complicado, dificuldade para estacionar, calçadas irregulares ou sensação de insegurança, o consumidor naturalmente começa a buscar alternativas mais fáceis. Não é que as pessoas não queiram ir ao centro. Muitas vezes, o centro deixou de ser conveniente.

Esse diagnóstico não é novo. Em 2025, a própria Câmara Municipal de Caruaru realizou uma audiência pública para discutir justamente os desafios do comércio central. Na ocasião foram levantados problemas como mobilidade urbana, estacionamento, segurança e a necessidade de maior diálogo entre o poder público e o setor produtivo.

O debate foi importante e mostrou que o problema é reconhecido. No entanto, os avanços práticos ainda são tímidos diante da dimensão do desafio. E é importante dizer com clareza: o comércio não pede privilégios. O que ele precisa são condições básicas para funcionar bem. Cada loja aberta gera empregos, movimenta renda e mantém o centro vivo. Quando uma loja fecha, não é apenas um negócio que desaparece — é um pedaço da vitalidade econômica da cidade que se perde.

Apesar de todos os desafios, o comércio de rua continua tendo vantagens que a internet não substitui: atendimento humano, confiança, relacionamento e a possibilidade de experimentar o produto na hora. Em cidades como Caruaru, essa relação entre lojista e consumidor foi construída ao longo de décadas e continua sendo um patrimônio importante.

Claro que o comércio também precisa evoluir. O consumidor de hoje pesquisa online, conversa pelo WhatsApp, vê produtos nas redes sociais e depois decide onde comprar. Por isso, cada vez mais a loja física precisa integrar o digital. Mas revitalizar o centro não depende apenas dos comerciantes.

É também uma decisão de cidade. Centros urbanos fortes precisam de mobilidade eficiente, estacionamento organizado, segurança, iluminação adequada, calçadas acessíveis e planejamento urbano que valorize a atividade econômica. E há um ponto que não pode ser esquecido: o consumidor também tem um papel importante nesse processo.

Quando escolhe comprar no comércio local, o consumidor ajuda a manter empregos, fortalece empresas da própria cidade e contribui para que o centro continue sendo um espaço vivo de convivência e desenvolvimento. O diagnóstico já foi feito. Os dados existem. O debate já aconteceu.

Agora é hora de transformar diagnóstico em ação. Valorizar o centro é preservar a identidade da cidade e fortalecer quem trabalha, empreende e gera oportunidades.

* Adjar Soares da Silva é Diretor lojista da CDL Caruaru e vice-presidente da FCDL Pernambuco