Paudalho ganha destaque nacional com mapeamento inédito de terreiros afro-indígenas

Mário Flávio - 01.12.2025 às 08:25h

A cidade de Paudalho, na Zona da Mata Norte de Pernambuco, acaba de conquistar visibilidade nacional e internacional com a divulgação do Dossiê Território Ancestral, levantamento pioneiro que identificou 19 casas de culto afro-indígena em funcionamento no município. O estudo coloca Paudalho entre as maiores concentrações de terreiros do Brasil e já repercute em plataformas digitais, onde está disponível com textos, fotos, vídeos e geolocalização de acesso público.

Coordenado por Jaifalerì, Babalossayn do Ylê Axé Xangô Ayrá, o projeto nasce do olhar de quem cresceu dentro das tradições ancestrais. Ao lado da produtora cultural Belisa Alves, Filha de Oxum, e do fotógrafo Edgar Lira, Filho de Ogum, o pesquisador liderou o trabalho que se propõe a ser instrumento político de afirmação identitária e enfrentamento ao racismo religioso. A iniciativa é gerida pela Baobá Produção Cultural e conta com incentivo da Secretaria de Cultura de Pernambuco, Fundarpe, Ministério da Cultura e Governo Federal, por meio da Política Nacional Aldir Blanc de Fomento à Cultura (PNAB).

A investigação percorreu bairros urbanos, comunidades rurais e áreas de difícil acesso para registrar, com escuta sensível e profundo respeito, a diversidade das práticas de matriz africana e indígena presentes no município. Foram identificados terreiros de Jurema Sagrada, Umbanda, Candomblé e casas afro-indígenas onde ritos, rezas, encantarias, folhas e tradições herdadas de povos africanos e originários se cruzam há gerações. Esses espaços atendem moradores de Paudalho e municípios vizinhos, formando redes espirituais que atravessam a Zona da Mata e alcançam a Região Metropolitana do Recife.

Seguindo metodologia referenciada pelo IPHAN, o levantamento priorizou o protagonismo das próprias lideranças religiosas. “Mapear não é invadir, é proteger”, afirma Belisa Alves. Ela reforça que o caráter comunitário foi essencial para o sucesso da pesquisa: “Quando praticantes realizam a escuta, há reconhecimento, confiança e troca de saberes que nenhuma pesquisa distante alcança”.

O acervo iconográfico reúne mais de 140 imagens captadas por Edgar Lira, que registrou lideranças, objetos rituais, cenas do cotidiano e espaços sagrados dos terreiros. O material integra também o documentário Território Ancestral, que amplia o alcance da pesquisa e reforça que tecnologia e ancestralidade podem caminhar juntas, sem contradição.

Os resultados foram apresentados na Mostra Território Ancestral, evento que reuniu mães e pais de santo, pesquisadores e moradores para o lançamento do dossiê, exibição do documentário e devolutiva pública dos dados levantados. Apesar dos convites, a participação de instituições municipais e estaduais foi considerada baixa pela coordenação, que vê no cenário um reflexo de desafios estruturais, como a falta de apoio institucional e o avanço da intolerância religiosa.

Mesmo diante desses obstáculos, o Dossiê Território Ancestral aponta caminhos para o fortalecimento das redes de terreiro, ampliação da visibilidade das tradições, valorização do protagonismo das comunidades e produção de conhecimento acadêmico a partir de suas próprias narrativas. “Este trabalho é continuidade”, afirma Jaifalerì. “É a certeza de que as próximas gerações terão acesso à história que sempre existiu, mas que muitas vezes foi silenciada. A ancestralidade não é passado: é presente e futuro.”

O dossiê completo, com todos os registros, histórias e geolocalizações, está disponível para acesso público no site territorioancestral.com.br.