Presidente da Câmara de Ipojuca é apontado como dono de associação que recebeu R$ 12 milhões via emendas dele próprio

Mário Flávio - 19.11.2025 às 20:19h

A Operação Alvitre, deflagrada pela Polícia Civil e pelo Ministério Público de Pernambuco (MPPE), revelou um dos capítulos mais graves da crise política em Ipojuca. O presidente da Câmara Municipal, vereador Flávio do Cartório (PSD), foi preso nessa terça-feira (18), em um mercado no bairro de Boa Viagem, Zona Sul do Recife, e agora é investigado por suposto envolvimento em um esquema de desvio de recursos públicos que movimentou R$ 12 milhões em três anos.

Os detalhes da investigação foram apresentados nesta quarta-feira (19) em entrevista coletiva concedida pelo delegado Ney Luiz Rodrigues, responsável pelo inquérito. Segundo ele, Flávio Henrique do Rego Souza — o Flávio do Cartório — seria o verdadeiro proprietário do Instituto Filhos de Ipojuca, associação que recebeu volumosos repasses por meio de emendas parlamentares.

Associação ligada ao vereador recebeu milhões para serviços sem capacidade de execução

De acordo com a Polícia Civil, até 2023 o Instituto Filhos de Ipojuca executava projetos de escolinha de esporte e recebia valores entre R$ 230 mil e R$ 250 mil. No entanto, houve uma mudança brusca no perfil dos repasses no ano passado.

“Em 2023, foi aprovada uma emenda impositiva destinando R$ 5 milhões para prestação de serviços na área de saúde”, explicou o delegado.

A investigação aponta que a associação não tinha capacidade técnica para oferecer serviços de saúde, como exigido pelas emendas, e teria terceirizado as atividades para outra entidade que já havia sido alvo da primeira fase da Operação Alvitre. Ainda segundo o delegado, membros da diretoria da Filhos de Ipojuca seriam familiares de Flávio do Cartório, o que reforça a suspeita de que o vereador controlava a entidade.

O presidente formal da associação — cujo nome não foi divulgado — e um empresário de Bezerros foram presos na manhã desta quarta-feira (19).

“O presidente dessa associação é uma pessoa muito próxima ao parlamentar. Já trabalhou para ele. Têm uma amizade antiga. Ele teria sido colocado ali por ser pessoa de confiança”, afirmou o delegado.

Mandado de prisão, monitoramento e flagrante

Flávio do Cartório já estava com um mandado de prisão preventiva em aberto por peculato. Segundo a Polícia Civil, após a primeira fase da operação, alguns investigados tentaram fugir, o que levou as equipes a monitorarem o vereador de forma contínua.

“Quando a equipe policial verificou uma situação possivelmente flagrancial, foi realizada a abordagem”, explicou Ney Luiz.

Além do presidente da Câmara, o 1º vice-presidente da Casa, Professor Eduardo (PSD), também foi detido na mesma ação. Com eles, os policiais encontraram R$ 17 mil em espécie e anotações que, segundo a polícia, indicam um “controle mensal de possível esquema de rachadinha”.

A Operação Alvitre segue em andamento, e novas etapas não foram descartadas pelas autoridades. O caso coloca ainda mais pressão sobre o cenário político de Ipojuca e deve desdobrar-se em novos capítulos nos próximos dias, à medida que o MPPE aprofunda a investigação sobre o possível desvio milionário de recursos públicos.